José Sá Fernandes, um homem de Lisboa.

Outubro 7, 2007

Daniel Lopes

     Eram 15 horas. A hora combinada para o encontro na Rua dos Douradoures, na Baixa de Lisboa. Após um momento de espera, entrei no número 202 da referida rua, local improvisado para sede de campanha (o cérebro de todas as operações).

     Entrando no gabinete, igualmente improvisado, estava o advogado José Sá Fernandes, que se assume como não sendo um político profissional.

     Durante a cerca de meia hora de agradável conversa, Sá Fernandes fumou dois cigarros (apesar de o cinzeiro já estar cheio de outros tantos) e bebeu um café. Dois vícios que o acompanham, nomeadamente num período de maior trabalho – a candidatura à Câmara de Lisboa.

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     Por se falar em Lisboa, José Sá Fernandes, questionado para fazer uma auto-definição, refere apenas que é “um homem de Lisboa”. Um homem que nasceu nesta cidade, mais propriamente no Príncipe Real a 15 de Abril de 1958.

     Separado e com uma filha de dez anos, fez a primária no Externato Luso-Britânico. O liceu foi feito no Colégio São João de Brito. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Lisboa com uma média de 12 valores. É advogado desde 1988 e a sua família tem uma longa tradição na área do Direito. É irmão mais novo do advogado Ricardo Sá Fernandes (um dos seus processos mais mediáticos foi a defesa de Carlos Cruz, no âmbito do processo “Casa Pia”). É ainda irmão de Paula Sá Fernandes, juíza desembargadora. Questionado sobre se prefere a política ou a advocacia, José Sá Fernandes prefere “o conjunto das duas”. “O advogado é para defender causas e, portanto, se a política for defender causas, é óptimo ser as duas coisas”. Contudo, a escolha do curso de direito e, concomitantemente, a advocacia foi uma opção, apesar do grande contacto com o meio proporcionado pela sua família. Volta novamente a afirmar que não é um político profissional. “Um político profissional dedica-se a combates em todo o país”. Para José Sá Fernandes, o único combate e a única ambição política é Lisboa. “Era incapaz de ser candidato a Setúbal, a Sintra, …” Esta poderá ser a razão pela qual se auto-define como sendo apenas um homem de Lisboa.

     O percurso político de José Sá Fernandes não é extenso. Eleito vereador da Câmara de Lisboa em 2005 nas listas do Bloco de Esquerda, é novamente concorrente nas eleições intercalares marcadas para 15 de Julho. Uma solução política encontrada após os sucessivos escândalos de corrupção e de outros delitos trazidos a público essencialmente pela comunicação social durante a presidência de Carmona Rodrigues. Para o advogado e político não profissional, o seu percurso resume-se a uma luta contra uma série de esquemas montados em Lisboa, “defendendo a transparência e apresentando uma série de propostas para a cidade, algumas das quais aprovadas com unanimidade”. Em suma: “meti-me nesta aventura há um ano e meio”.

     Para além da política e da advocacia, costuma sair, nomeadamente à noite. Tem um lugar predilecto: o Bairro Alto.

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     O jornalismo está presente, embora de forma indirecta, na sua vida. Ou através das várias acções e providências cautelares que foi aplicando contra diversas obras de Lisboa, ou como factor porventura importante na promoção da sua imagem junto da população. Contudo, o jornalismo, na sua óptica, deve ser mais objectivo e isento. O que se poderia fazer para tornar esta ideia realidade? “É necessário que os jornais não estejam tão dependentes dos interesses económicos”, referindo-se nomeadamente à cada vez maior concentração dos media. E a política? Como estará a política em Portugal? Está igualmente, na sua opinião, dependente de interesses económicos. Mas que tipo de política? Será mais à direita ou mais à esquerda? “Os interesses económicos são mais visíveis na direita e no PS”. Critica um chamado “centrão” da política Portuguesa, presente entre o PS e o PSD. “Quem se tem conformado são estes dois partidos e o que se tem assistido é que não houve nenhuma inversão em relação à especulação imobiliária, em relação ao tipo de obras públicas que se pretendem fazer”.

     As referências ideológicas são de esquerda. O seu curto percurso político (a “aventura”) tem sido feito à esquerda. O que será então a esquerda? A esquerda é “uma questão de valores”. Ser de esquerda é “acreditar que em todas as vertentes da sociedade tem de estar subjacente a parte social”. As pessoas são mais importantes. É isto que diferencia a esquerda da direita. “Se é para todos é para todos”.

     Falando em referências ideológicas, o nome de Olof Palme surge como o político de referência de José Sá Fernandes. Olof Palme foi o líder do Partido Social-Democrata sueco e primeiro-ministro da Suécia entre 1969 e 1982, tendo sido assassinado em 1986. Ficou conhecido como um dos maiores exemplos da Social-Democracia Escandinava, levando a avante a ideia de conciliar uma economia de mercado com um estado social. Durante este período, a Suécia apresentava uma economia forte e desenvolvida, possuindo um dos mais elevados níveis de assistência social. Palme foi também uma controversa figura política na cena internacional, sendo igualmente conhecido como um franco crítico aos Estados Unidos e à sua guerra no Vietname, pela sua campanha contra a proliferação de armas nucleares, bem como crítico ao regime de Franco em Espanha e opositor ao apartheid na África do Sul. Este político sueco tem opositor ao apartheid na África do Sul. Este político sueco tem influência no pensamento de José Sá Fernandes, pois considera-se “um social-democrata deste género”. Uma social-democracia de esquerda e “não a social-democracia que andam aqui [Portugal] tentar vender”. As suas acções são por aqui influenciadas, pois “têm aquele carácter de justiça social.” Outros políticos de que gosta: presidente Kennedy, nos EUA. Em Portugal admite que tenham existido bons políticos. “Sá Carneiro foi um bom político”. Na actualidade, Francisco Louçã e Mário Soares. Porquê? Os três são definidos por adjectivos com sufixo – mente: o primeiro é consistente, o segundo persistente e o terceiro resistente.

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     Não gosta de ser reconhecido como sendo do Bloco de Esquerda nesta campanha à câmara de Lisboa. Pertence a um grupo de independentes que tem um objectivo comum e uma convergência: Lisboa.

     Saindo um pouco do campo da política, vários são os autores literários de referência. Destacam-se Jorge Luís Borges, Franz Kafka, Eça de Queirós, Luís de Camões, Fernando Pessoa, Lídia Jorge e, na contemporaneidade, José Luís Peixoto. Todos tiveram influência na sua formação, pois “os bons escritores são boas lições”.

     As qualidades e defeitos de José Sá Fernandes são difíceis de serem expressas pelo próprio – “não me posso auto-elogiar”. Uma tentativa de não ser considerado quiçá narcisista? A resposta é, na sua óptica, não.

     Por entre uma pequena pausa para o café e mais um cigarro, algumas são as interrupções que ocasionalmente vão surgindo. Para ler um requerimento ou para acertar as últimas coisas. Tudo em prol do sucesso da nova “aventura”: a já referida candidatura à presidência da câmara municipal de Lisboa.

     José Sá Fernandes começou a ser conhecido pela opinião pública pelas acções e pelas providências cautelares que foi fazendo contra várias obras públicas em Lisboa. As obras do metro da Linha Azul – prolongamento desde a Baixa/Chiado até Santa Apolónia – no Terreiro do Paço foi a primeira, acabando por vencer em 1997. A mais recente, e igualmente mediática, foi contra o túnel do Marquês, obra de Santana Lopes e de Carmona Rodrigues, ganhando uma providência cautelar, a qual parou as obras durante algum tempo. Olhando para estas batalhas, pode-se considerar uma pessoa determinada. O mesmo concorda. É um homem de convicções, defendendo-as sem medo. Quando se falou no túnel do Marquês, Sá Fernandes acusa a comunicação social de ter passado uma imagem distorcida da realidade. “O túnel que está lá não foi aquele que o tribunal aprovou; se não tivesse intervido não teriam sido introduzidas 41 medidas dinamizadoras, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) não teria modificado o projecto todo”.

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     Estas tomadas de decisões afectam sempre a imagem. Positiva ou negativamente. A comunicação social exerce uma certa influência, ou seja, “é importante que aquilo que seja dito seja bem transmitido”. Uma sensação de dever cumprido. Contudo, a opinião pública é sempre importante. Ainda em relação ao túnel do Marquês, há a ideia de que a paragem das obras (derivada da providência cautelar posta por José Sá Fernandes) tenha gasto milhões de euros. “Isso é mentira; essa foi a imagem utilizada pelos meus adversários.” Após explicar todos os contornos e motivos que o levaram a colocar uma providência cautelar (relembrando que a mesma foi aprovada por um tribunal e obrigou à introdução das 41 medidas dinamizadoras), afirma que, apesar de tudo, está orgulhoso daquilo que fez.

     Qualquer pessoa tem, durante a sua experiência de vida, momentos mais marcantes. José Sá Fernandes não foge à regra. O seu percurso “político” deve ter proporcionado alguns. Porém, o nascimento da filha foi o momento pessoal mais marcante. Já em termos profissionais, este momento chegou quando se formou em Direito.

     Já viajou mais. Portugal ainda tem algo que aprender com alguma da realidade política praticada nos países pelos quais teve oportunidade de viajar. Os mecanismos de transparência são um deles. Confessa que em Portugal esses mecanismos estão viciados. Em tom confidente diz que nunca foi aos Estados Unidos da América. Contudo, e falando novamente de jornalismo, a cultura jornalística praticada nos EUA tem mais poder e, em alguns aspectos, é menos dependente dos vários poderes. Pelo menos é a sensação que tem.

     Numa recente entrevista concedida à revista Sábado (edição nº 162), questionado sobre se identificava mais com o Zorro ou com o D. Quixote, José Sá Fernandes, um homem católico, crente e praticante, escolheu o Zorro. Na nossa conversa voltou novamente a escolher o herói de capa e espada. O D. Quixote é um sonhador. O Zorro tem “os pés na terra e defende os injustiçados”. Pode-se retirar, possivelmente, desta frase uma melhor auto-definição deste homem que se considera apenas como sendo de Lisboa.

     “O mais importante é uma pessoa não procurar vender-se”. Esta afirmação vem do seguimento da questão sobre a forma como é abordado pelas pessoas na rua. Uma pessoa que denuncia tentativas de suborno e de corrupção deve ter cautelas no seu dia-a-dia. Nunca se sabe aquilo que os potenciais ou novos inimigos podem fazer. Relativizando a preocupação, e falando daqueles que ocasionalmente possam cruzar com José Sá Fernandes numa rua ou avenida lisboetas, “as pessoas podem não votar em mim, mas gostam da minha atitude”. Pode-se inverter a situação? “A pessoa deve apresentar-se como é”.

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     Várias são a imagens passadas para a opinião pública. Algumas já foram a opinião pública. Algumas já foram descritas. Falta uma. Porventura a mais importante. Há quem considere que José Sá Fernandes foi para a política para chatear e por ser incómodo. Reconhece que incomoda muita gente, mas responde de forma clara: “Eu não fecho os olhos a coisas que se passam dentro da câmara; e foi isto que prometi aos lisboetas”. Novamente as suas convicções estão presentes…

     Para os curiosos que tentam saber a primeira coisa que o “Zé” faz quando desperta para um novo dia, esta não se afasta do comum do cidadão: “tomar banho e pensar nas diversas tarefas que vou ter ao longo do dia”. Porém, garante que acorda sempre bem-disposto.

     Porquê o “Zé”? Nos cartazes de campanha, o slogan utilizado é “O Zé faz falta”. A resposta é fácil. É a forma como é conhecido. Contudo, adianta que é um tipo de cartaz que foge ao convencional. Não será uma forma de se tentar aproximar do seu eleitorado? Será que os lisboetas se identificam com o cartaz? “Acho que sim”. ■